domingo, 22 de janeiro de 2017

RESENHA 'ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA' de José Saramago




Título:
Ensaio Sobre a Cegueira

Autor:
José Saramago

Editora:
Companhia das Letras

Número de páginas em pdf:
183






EM TERRA DE CEGOS

Imagina só, o que aconteceria se, de repente, as pessoas ficassem cegas. Cegueira total, daquela que não se vê nem a ponta do nariz.  E, assim sendo, seriam afastadas de suas famílias, de seus amigos e deixadas em um lugar estranho; confinadas, sem nenhuma assistência médica, ou de saneamento básico, ou higiênica... E cada um por si. Imaginou? Seria uma bagunça, né?

Pois então, é isso exatamente que acontece nessa história de Saramago, as pessoas, de repente, se veem cegas, e algumas, sem a capacidade de controlar suas próprias vidas e de tomar decisões. Então, para sobreviverem, se deixam levar pelas imposições de outras pessoas cegas ― mesmo que essas imposições sejam absurdas. Outras, ao contrário, expõem o que há de pior em si e agem da maneira mais vil: roubando, humilhando, subjugando, escravizando e até mesmo matando seus semelhantes. O homem se transforma. Só em condições sub-humanas para conhecermos o  verdadeiro amago das pessoas.

Quando não somos levados pela cegueira que acomete às massas, enxergamos além das aparências. Então, paramos de seguir outros cegos e passamos a pensar, a questionar e escolher nossos próprios caminhos e atitudes.

Mas é bem verdade que, para alguns, a maioria, infelizmente, é mais confortável continuarmos assim, cegos. Andando como um bando de covardes teleguiados. Muitas vezes por comodismo, ou por não querermos assumir nossas responsabilidades, ou as consequências de nossos atos. E mesmo quando enxergamos a cegueira e mesmo assim continuamos seguindo nossos guias, não  somos melhores que eles, nos mostramos mais cegos ainda.


E para quem pensa que esta história é absurda, dramática e muito angustiante, posso afirmar que ela retrata a nossa humanidade com perfeição. E lembra uma história do nosso passado, não muito distante; dos depositos de leprosos, onde seres humanos eram jogados para apodrecerem até a morte. E isso nos faz pensar: a humanidade é podre, pobre, louca e doentia. Precisamos de cuidados. Mas como diz o ditado: “O pior cego é aquele que não quer ver”. Pois a cegueira não está nos olhos, mas sim na mente e no coração.

Jussara Pires